ACELERAM OS INVESTIMENTOS NO SETOR DA SAÚDE

A crise em andamento no Brasil pode proporcionar aos investidores de private equity justamente o que eles vêm buscando há algum tempo: uma porta de entrada no país. É o que destacou o Wall Street Journal (WSJ) em recente matéria.

Empresas com perspectiva de crescimento e expansão, seja através de fusões ou aquisições, e que apresentem potencial futuro de abertura de capital na bolsa, costumam ser o alvo dos fundos de investimento.

O setor de saúde tem sido apontado como um dos que mais chamam a atenção de investidores, justamente pela característica de ter uma demanda constante, não sendo afetado de forma tão forte como o setor imobiliário ou comércio, por exemplo. A alta do dólar tornou os ativos extremamente atrativos, mesmo que alguns insumos importados tenham aumentado os custos e afetado a margem de lucro. A falta de leitos e o envelhecimento da população no Brasil são oportunidades latentes que minimizam a questão da moeda.

Porém, muitos hospitais ainda deverão levar algum tempo para estarem prontos para receber aporte vindo de fora. A falta de acreditação (nacional e/ou internacional) e de uma gestão mais profissional, com uma sólida governança já implementada, são as causas que podem retardar o processo. “O ciclo de consolidação de hospitais será mais longo porque ainda falta gestão profissionalizada, a legislação é recente e não está sendo totalmente compreendida. Mas, ao mesmo tempo, faltam leitos de hospitais. Ou seja, há uma ótima oportunidade e estamos entusiasmados com o setor”, disse Breno Raikko, diretor da gestora americana de investimentos Advent, em seminário organizado pela Amcham em São Paulo.

Mesmo assim, investidores de peso têm feito negócios no país. Em abril, o Carlyle Group investiu US$ 593 milhões na compra de uma fatia minoritária da operadora de hospitais Rede D’Or São Luiz SA e, em agosto, adquiriu a administradora de planos de saúde e assistência Tempo Participações SA por US$ 169 milhões, segundo a provedora de dados Dealogic. Em maio, o GIC Pte Ltd., fundo soberano de Cingapura, pagou US$ 508 milhões por outra fatia da Rede D’Or.

A Advent International, que no ano passado captou US$ 2,1 bilhões no maior fundo com foco na América Latina já levantado até hoje, informou que pretende adquirir uma participação de 13% na rede de diagnósticos médicos Fleury.

Segundo o WSJ, uma pessoa próxima à Advent diz que a firma americana está acompanhando o Fleury desde o ano passado, quando a empresa, que tem ações negociadas na Bovespa, divulgou que as negociações para a venda de uma fatia de 41,2% à Gávea Investimentos, pertencente ao banco americano J.P. Morgan Chase & Co., haviam fracassado.

Embora a cotação das ações do Fleury tenha se mantido praticamente estável durante os últimos 12 meses, a desvalorização do real levou o valor de mercado da empresa a aproximadamente US$ 670 milhões, cerca de 65% menor que a valoração de um ano atrás, quando as negociações com a Gávea estavam em andamento.

A espera também fez com que a Advent não tivesse o trabalho de integrar as aquisições que o Fleury fez do Labs D’Or, em 2011, e da Papaiz Associados, de diagnósticos dentais, em 2012.

Algumas firmas de private equity que atuam no Brasil afirmam que está mais fácil competir por negócios agora que as empresas enfrentam escassez de crédito. “Nos bons tempos, os empresários não queriam levantar capital com venda de participações porque não queriam que seu patrimônio fosse diluído”, diz Marcelo Hallack, sócio do banco BTG Pactual, que faz investimentos de private equity através de sua unidade Merchant Banking. “Entretanto, quando o dinheiro fica escasso, essa questão tende a desaparecer, ” diz ele.

O acesso a capital está encolhendo no Brasil com o contínuo crescimento do custo dos empréstimos. A taxa Selic subiu para 14,25% ao ano em julho – e se mantém neste patamar, desde então – ante 7,25% de 18 meses atrás.

Os problemas macroeconômicos do país também afetam as firmas de private equity ao prejudicar as empresas que fazem parte de seus portfólios.

A Rede D’Or, na qual o BTG Pactual também tem uma fatia, deve ter um desempenho superior na recessão atual devido à rapidez do envelhecimento da população brasileira, acrescenta Hallack.

Em maio, Jorge Moll (presidente da Rede D’Or São Luiz) e Francisco Balestrin (presidente da Anahp) alertaram a executivos presentes em evento da Feira Hospitalar, da necessidade de melhorar a gestão das empresas. “Quem pretende permanecer no mercado tem que se preparar, agora mais do que nunca, é um mercado novo” sentenciou Jorge Moll. Francisco Balestrin lembrou-se do início da Associação, dizendo que ela sempre teve uma visão que defende a boa governança e a sustentabilidade financeira, o que inegavelmente favorecerá os membros da entidade a se adaptarem aos novos desafios de mercado.

EUA é um mercado com extremo “apetite”

As fusões hospitalares aceleraram a um ritmo “alarmante” nos EUA nos últimos cinco anos, com 95 fusões hospitalares tendo ocorrido só em 2014, segundo o portal norte-americano HealthLeaders. Pesquisadores da Universidade Johns Hopkins (EUA) citam estudos que mostram que cerca de 20% dos hospitais norte-americanos buscarão alguma fusão nos próximos cinco anos. “Os princípios básicos da economia valem para os preços médicos da mesma maneira que para qualquer outra indústria”, diz o autor do alerta, Marty Makary, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins e professor adjunto de política e gestão de saúde na Escola Bloomberg de Saúde Pública Johns Hopkins.

Investimentos estrangeiros no RS

Para Cláudio Allgayer, presidente da Fehosul, entidade que congrega os principais estabelecimentos de saúde do Rio Grande do Sul (hospitais, clínicas e laboratórios), o cenário está realmente em maturação, embora em fase inicial. Existem, segundo Allgayer, algumas instituições gaúchas que apresentam grande potencial de negócios, citando áreas como oncologia, hospitais especializados, medicina diagnóstica e centros de cuidados do idoso. “O que estas empresas têm em comum é uma boa governança. A abertura ao capital estrangeiro pode se tornar um impulsionador para que outras instituições  de saúde se profissionalizem ainda mais. Enxergo também oportunidades para as instituições filantrópicas entrarem em um novo patamar. Somente os devidamente habilitados conseguirão tirar vantagem competitiva neste cenário”, disse.

Allgayer comentou sobre o que a Fehosul tem feito a respeito do tema. “Conversas têm sido feitas com players potenciais. Eles poderão ser apresentados a fundos de investimento com os quais mantemos contato, ou ainda, auxiliados no processo de preparação dos seus negócios. Estamos concebendo um projeto, gerido pela Fehosul, com importantes parceiros da área financeira, visando facilitar uma agenda de alinhamento das instituições com potencial para o private equity”, destacou Cláudio Allgayer, que acrescentou que ainda não há uma data definida para o lançamento da iniciativa.

Setor Saúde

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