Entrevista com Alejandro Werner sobre a evolução econômica recente na América Latina

Em uma entrevista com Alejandro Werner, Diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental do FMI, discutimos as constatações do relatório, a recente agitação social na região, bem como os últimos acontecimentos na Argentina e no Equador.

A edição de Perspectivas econômicas: As Américas do ano passado analisou a evolução da desigualdade e da pobreza na região. Qual tem sido o comportamento desses indicadores desde então? Os governos têm políticas adequadas para enfrentar esse problema?

Nosso estudo do ano passado se baseou em dados obtidos até 2015. Ainda precisamos analisar com cuidado os dados recentes para avaliar de modo mais definitivo como a desigualdade de renda e a pobreza vêm evoluindo desde então. Entretanto, o que está claro, com base nos dados obtidos de vários países, é que com a desaceleração do crescimento em toda a região nos últimos três ou quatro anos, o progresso no combate à pobreza e à desigualdade também diminuiu e talvez tenha até sido revertido em alguns países. Isso gera um grande desafio. Os altos níveis de desigualdade e a falta de oportunidade econômica continuam sendo uma fonte de descontentamento para a população e acabam prejudicando o crescimento econômico. 

Tendo isso em mente, é fundamental que os governos continuem a buscar um crescimento mais forte e mais inclusivo e a reforçar gastos bem direcionados e programas sociais para a proteção dos grupos mais vulneráveis. Ao mesmo tempo, muitos governos da região precisam lidar com altos níveis de dívida pública. Isso representa um desafio porque pode, em última instância, afetar a capacidade de cumprir obrigações, como o pagamento de salários e o investimento na saúde, infraestrutura e educação. A abordagem desses dois temas essenciais continua sendo uma prioridade na elaboração dos programas recentes apoiados pelo FMI. 

A corrupção também vem tendo repercussões nas economias da região. Como o FMI está abordando esse tema?

A corrupção é um problema. Ela corrói a capacidade do governo de ajudar a economia a crescer de uma maneira que beneficie a todos os cidadãos. As empresas procuram criar conexões em benefício próprio e os políticos direcionam os gastos para áreas em que o desvio de recursos públicos é mais fácil, em vez de trabalharem pelo bem-estar social. A corrupção também priva os pobres de bens públicos essenciais, como cuidados de saúde e educação de qualidade, que estão disponíveis aos bem conectados. De modo mais amplo, a corrupção corrói a legitimidade do Estado e mina o apoio à implementação de políticas públicas.

Para enfrentar a corrupção, a região lançou recentemente diversas iniciativas, tais como: i) a mudança das leis de financiamento de campanha no Peru, ii) o novo portal de dados abertos do governo do Paraguai e iii) a inauguração da Secretaria Anticorrupção da Presidência da República do Equador. Estamos comprometidos com a assistência a nossos países membros no combate à corrupção, por meio de assistência técnica e assessoramento sobre políticas, no contexto de nossos programas. 

Como a crise humanitária e migratória da Venezuela está repercutindo no restante da região?

A Venezuela está vivendo uma grave crise humanitária, que vem desencadeando grandes fluxos migratórios em toda a região. Com base nas tendências atuais, o número de migrantes da Venezuela deve chegar a seis milhões até o fim de 2019Estima-se que cerca de 90% desses migrantes permanecerão na região da América Latina e Caribe, o que exercerá uma pressão imediata sobre os gastos públicos e o mercado de trabalho.  É claro que, com o tempo, os imigrantes incorporados aos países poderão contribuir para um maior crescimento econômico. 

Um desafio fundamental para as autoridades da região é como administrar essa transição em um momento de desaceleração da atividade econômica e de necessidade de redução do déficit fiscal em vários países. Esse problema é particularmente grave em países que receberam grandes fluxos migratórios em relação a sua população local, como alguns pequenos Estados caribenhos, bem como o Chile, a Colômbia, o Equador e o Peru.

A Argentina realizou eleições ontem. Quais são os próximos passos em relação ao compromisso com o FMI? 

Como a Diretora-Geral declarou hoje cedo, parabenizamos o Presidente eleito Alberto Fernández pela vitória. Aguardamos com interesse o trabalho conjunto com seu governo para enfrentar os desafios econômicos do país e promover um crescimento inclusivo e sustentável que beneficie a todos os argentinos.

 O Equador está diante de importantes desafios econômicos e sociais. Como o programa apoiado pelo FMI pode ajudar a enfrentá-los?

Primeiramente, eu diria que estamos acompanhando a situação no Equador com muita atenção e gostaria de manifestar nossa solidariedade a todos aqueles afetados pelos eventos recentes. Nossa prioridade, e o objetivo do governo, é a implementação de políticas econômicas que abordem os desafios existentes no país, como diminuir a dívida, fortalecer o crescimento, apoiar o investimento em saúde e educação e, em última instância, melhorar a vida de todos os equatorianos. 

Gostaria de destacar dois importantes pilares do plano econômico do governo, os quais são essenciais para nós. Primeiro, o programa do governo apoiado pelo FMI prevê explicitamente um aumento substancial de recursos para a proteção social visando o amparo dos pobres e vulneráveis. O governo anunciou recentemente um aumento tanto dos valores como da população coberta pelos programas de proteção social. Em segundo lugar, o programa visa restabelecer a transparência e a boa governança, o que inclui medidas para melhorar a prestação de contas no setor petrolífero, combater a corrupção e tornar as contas públicas acessíveis a todos os cidadãos. O governo também está procurando impulsionar a competitividade e criar mais empregos reduzindo barreiras à contratação e promoção de mais mulheres na força de trabalho.

A Jamaica concluiu com sucesso seu programa apoiado pelo FMI. Quais foram as lições extraídas dessa experiência?

A implementação firme das reformas teve resultados muito positivos, como a redução da dívida pública em 50 pontos percentuais do PIB desde 2013 para menos de 95% do PIB, e a menor taxa de desemprego da história: 7,8%.

 Um elemento fundamental para o sucesso do programa foi o estabelecimento da Comissão de Supervisão do Programa Econômico, que foi liderada por membros da sociedade civil, incluindo diversas partes interessadas e partidos políticos, assim como a comunicação constante para manter o público bem informado e levar a cabo as reformas. Essa liderança desdobrou-se no compromisso de cumprir todas as promessas; um desempenho impressionante. 

 Outra lição importante para outros países é o benefício da introdução gradual de reformas difíceis. A transição dos impostos diretos para os indiretos, por exemplo, foi implementada paulatinamente ao longo de dois anos e o aumento das contribuições das pensões dos funcionários públicos e a recapitalização do banco central foram executados em três anos.

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