A cidade na Paraíba onde a água nunca teve boleto: Itapororoca vive dilema histórico entre gratuidade e sustentabilidade hídrica

Crédito: Divulgação: paraibacriativa.com.br

Município paraibano abastecido por nascente própria há mais de seis décadas enfrenta crescimento urbano, pressão ambiental e decide pela concessão do serviço à Cagepa, reacendendo debate sobre direito à água e futuro do saneamento.

A cidade brasileira de Itapororoca, localizada no interior da Paraíba, voltou ao centro das atenções nacionais em 31 de dezembro de 2025 por um detalhe que parece improvável no Brasil contemporâneo: seus moradores não pagam conta de água há 64 anos. Desde a fundação do município, em 1961, o abastecimento urbano sempre foi garantido por uma nascente natural que funciona como reservatório próprio, uma condição rara em um país frequentemente marcado por crises hídricas, racionamentos e tarifas crescentes.

Durante décadas, a água correu livre pelas torneiras da cidade sem a necessidade de medição individual ou cobrança mensal. O sistema simples, mantido pelo poder público local, tornou-se parte da identidade de Itapororoca, reforçando a percepção de que o acesso à água era um direito natural, quase um patrimônio coletivo. A nascente, além de abastecer milhares de residências urbanas, alimenta piscinas naturais e estruturas do tradicional Parque da Nascença, espaço de lazer, convivência e símbolo histórico da cidade.

Uma exceção brasileira em tempos de escassez

Em um país onde a maioria dos municípios enfrenta problemas crônicos de saneamento básico, Itapororoca sempre foi citada como uma exceção. Enquanto grandes centros urbanos convivem com redes antigas, perdas elevadas e tarifas progressivamente mais altas, a cidade construiu sua rotina sobre a abundância local. A água sempre esteve ali, brotando do solo, garantindo abastecimento contínuo mesmo em períodos de estiagem moderada.

Foto: clickpetroleoegaz.com.br

Essa realidade, no entanto, começou a mudar nos últimos anos. O crescimento populacional, a expansão urbana e o aumento do consumo colocaram pressão direta sobre a nascente. Hoje, mais de cinco mil residências urbanas dependem diretamente dessa fonte, número muito superior ao existente na década de 1960, quando o sistema foi concebido. O que antes era sobra passou a exigir controle, planejamento e investimentos.

O Parque da Nascença e o papel simbólico da água

O Parque da Nascença é mais do que um ponto turístico local. Ele representa o elo entre a população e a água que sustenta a cidade. Suas piscinas naturais, abastecidas diretamente pela nascente, sempre foram usadas por moradores e visitantes, reforçando a ideia de abundância e de bem comum. Ao longo dos anos, o parque tornou-se cenário de eventos, encontros familiares e atividades culturais, consolidando-se como um marco da memória coletiva.

Contudo, especialistas alertam que o uso recreativo da água, somado ao abastecimento urbano crescente, exige cuidados técnicos rigorosos. Sem monitoramento constante da vazão, da qualidade e da recarga do aquífero, o risco de degradação ambiental aumenta, comprometendo não apenas o lazer, mas a segurança hídrica de toda a cidade.

Foto abaixo: jornaldaparaiba.com

Crescimento urbano e limites do modelo gratuito

O modelo de abastecimento gratuito funcionou enquanto a cidade era pequena e a demanda limitada. Com o passar dos anos, Itapororoca se expandiu, surgiram novos bairros, comércios e serviços públicos, elevando significativamente o consumo diário. A ausência de hidrômetros e de cobrança dificultou políticas de uso racional, já que não há incentivo econômico direto para a redução do desperdício.

Além disso, a manutenção da rede, a proteção da nascente e a adequação às normas sanitárias modernas exigem investimentos que ultrapassam a capacidade financeira do município. A crise hídrica que afeta diversas regiões do Nordeste brasileiro também acendeu o alerta: mesmo fontes historicamente estáveis podem sofrer impactos diante de mudanças climáticas e uso intensivo do solo.

A concessão à Cagepa e o fim de uma era

Diante desse cenário, a concessão do sistema de abastecimento à Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa) foi aprovada, marcando um ponto de inflexão na história local. A decisão não foi simples nem consensual. Para muitos moradores, a cobrança pela água representa o fim de um privilégio histórico e a quebra de um pacto social que atravessou gerações.

Por outro lado, defensores da concessão argumentam que a medida é necessária para garantir sustentabilidade, qualidade e segurança no longo prazo. A Cagepa deverá implementar sistemas de medição, ampliar a infraestrutura, investir em tratamento e estabelecer políticas de preservação ambiental, reduzindo riscos de colapso futuro.

Direito à água versus sustentabilidade financeira

O caso de Itapororoca reacende um debate nacional: até que ponto a água deve ser tratada como um direito gratuito e quando passa a exigir tarifação para garantir sua continuidade? No Brasil, a água é reconhecida como direito essencial, mas a prestação do serviço envolve custos elevados de captação, tratamento, distribuição e manutenção de redes.

A experiência do município mostra que modelos alternativos podem funcionar por décadas, desde que haja equilíbrio entre oferta e demanda. No entanto, também evidencia que o crescimento urbano e as mudanças ambientais impõem novos desafios, tornando necessária a profissionalização da gestão hídrica.

Repercussão nacional e lições para outros municípios

A repercussão do caso em 31/12/2025 ultrapassou os limites da Paraíba. Itapororoca passou a ser citada em debates sobre saneamento, políticas públicas e gestão de recursos naturais. Especialistas apontam que a história da cidade oferece lições valiosas: a importância de proteger nascentes, planejar o crescimento urbano e antecipar investimentos antes que a escassez se torne realidade.

Ao mesmo tempo, o fim da gratuidade levanta questionamentos sobre tarifas sociais, subsídios para famílias de baixa renda e mecanismos de transição que respeitem a história local sem comprometer o futuro.

Entre o passado singular e o futuro necessário

Foto: clickpetroleoegaz.com.br

Itapororoca entra em 2026 dividida entre a memória de um passado singular — quando a água jorrava sem boletos nem medidores — e a necessidade de um futuro sustentável. A nascente que fundou a cidade continua ali, mas agora sob novas responsabilidades, regras e expectativas.

O desafio será equilibrar tradição e modernização, garantindo que a água, antes símbolo de abundância gratuita, continue sendo fonte de vida, desenvolvimento e dignidade para as próximas gerações.

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