Crédito: Foto: Wikipedia Oficial da Cidade de Pacaraima RR, Photo: IOM/Gema Cortes
No extremo Norte do Brasil, a convivência com venezuelanos transformou a rotina urbana; pressões internacionais sobre a Venezuela repercutem diretamente na administração municipal e na vida dos imigrantes
A fronteira que virou cotidiano
Pacaraima, no extremo Norte de Roraima, é a porta terrestre do Brasil para a Venezuela. Ao longo da última década, a cidade deixou de ser apenas um ponto de passagem para tornar-se território de permanência, acolhimento e integração. A migração venezuelana — intensificada desde meados da década de 2010 — redefiniu o perfil urbano, social e administrativo do município.
Hoje, ouvir espanhol nas ruas, ver placas bilíngues improvisadas, comércio misto e serviços pressionados faz parte da rotina. A fronteira não é mais apenas geográfica; é social, econômica e cultural.
Da crise venezuelana à pressão local
O fluxo migratório é consequência direta do colapso econômico e institucional da Venezuela, agravado por sanções internacionais, queda de produção, hiperinflação e escassez de bens. Pressões diplomáticas e econômicas lideradas pelos Estados Unidos, somadas a disputas políticas internas, repercutem além das fronteiras, empurrando milhares de pessoas para o Brasil.
Independentemente da intervenção americana ou mesmo confirmação oficial de prisão do presidente venezuelano, qualquer agravamento institucional — como endurecimento de sanções, ruptura diplomática ou instabilidade política — tende a produzir ondas migratórias adicionais, com impacto imediato em Pacaraima.
Administração municipal sob sobrecarga
Com orçamento limitado e base tributária pequena, a prefeitura passou a administrar uma cidade que cresce mais rápido que sua capacidade fiscal. Entre os principais efeitos na Saúde, por exemplo, há um aumento da demanda por atenção básica, urgências e vacinação. Na Educação com matrículas adicionais mesmo com eventual barreiras linguísticas e adaptação pedagógica. Com o volume do acolhimento emergencial do fluxo migratório, a assistência social desenvolve novos cadastros e proteção a grupos vulneráveis e, consequentemente gera impactos na limpeza urbana com aumento de resíduos sólidos influenciando maior pressão sobre serviços e ocupações informações além de condições habitacionais para os novos cadastrados.
A resposta local só se tornou viável com apoio federal e internacional, especialmente por meio da Operação Acolhida, que organiza recepção, triagem, vacinação e interiorização para outros estados.
Economia local: impacto e adaptação
A migração trouxe desafios, mas também dinâmica econômica. O comércio ampliou horários e diversidade; surgiram serviços, pequenas oficinas, restaurantes e feiras. Ao mesmo tempo, houve competição por empregos informais, pressionando salários e exigindo políticas de mediação e qualificação.
Para a prefeitura, o desafio é transformar o fluxo humano em desenvolvimento ordenado, com formalização, capacitação e parcerias que evitem conflitos e ampliem oportunidades.
Integração social e convivência

Foto: IOM/Gema Cortes
Depois de anos de convivência, a presença venezuelana tornou-se parte da identidade local. Famílias mistas, escolas multiculturais e redes solidárias ajudam a reduzir tensões. Ainda assim, episódios de xenofobia surgem em contextos de crise econômica ou picos de chegada — o que reforça a importância de políticas de comunicação pública e mediação comunitária.
O papel das pressões internacionais
Sanções e disputas geopolíticas não são abstratas para cidades de fronteira. Cada anúncio de endurecimento externo pode resultar em novas entradas, exigindo planejamento contingencial: leitos, insumos, abrigos, equipes e coordenação intergovernamental.
Caso ocorra qualquer ruptura institucional relevante na Venezuela (hipótese analisada por especialistas), Pacaraima seria o primeiro termômetro no Brasil — exigindo respostas rápidas e integradas.
Governança multinível: lições da fronteira
A experiência de Pacaraima evidencia que migração é tema municipal, mas solução é federativa e internacional. Entre as prioridades:
- Financiamento estável para municípios de fronteira;
- Integração de dados entre União, estado e prefeitura;
- Capacitação de servidores para contextos interculturais;
- Parcerias com organismos internacionais;
- Políticas de interiorização e inclusão produtiva.
Pacaraima é hoje um laboratório de convivência, gestão e diplomacia cotidiana. A cidade mostra que decisões tomadas em capitais distantes — Washington, Caracas ou Brasília — têm efeitos concretos nas ruas de um pequeno município amazônico.
Entre desafios e aprendizados, Pacaraima ensina que planejamento, solidariedade e cooperação são tão essenciais quanto recursos. A fronteira não é apenas linha no mapa; é vida em movimento.
Da Redação
