Crédito: Banco de Imagens
O transporte público gratuito deixou de ser utopia e tornou-se a política de maior impacto econômico e social do Brasil. Entenda a engenharia financeira para implementar a Tarifa Zero no seu município respeitando a LRF.
Até poucos anos atrás, falar em transporte público gratuito nas Câmaras Municipais era sinônimo de “ideia irresponsável” ou “quebra de caixa”. O paradigma, no entanto, virou de cabeça para baixo. Hoje, mais de 100 municípios brasileiros de diversos tamanhos já operam com a Tarifa Zero.
A mudança de chave mental para o gestor é simples, mas poderosa: o transporte público deve ser encarado como um direito universal e uma infraestrutura básica da cidade, exatamente como o SUS ou a Educação Pública. Ninguém paga catraca para entrar em um posto de saúde ou em uma escola municipal. Por que o cidadão precisa pagar para acessar a própria cidade?
O segredo do sucesso, contudo, não é a caridade, é a matemática. Nenhuma prefeitura absorve o custo total da operação tirando dinheiro do nada. A viabilidade da Tarifa Zero depende de uma “engenharia financeira” inteligente que reestrutura o modelo de concessão.
A Engenharia Financeira: Quem Paga a Conta?
A grande ilusão do modelo antigo de transporte é achar que o sistema se paga apenas com a moeda do passageiro. Na realidade, a prefeitura já injeta milhões anualmente em subsídios para as empresas de ônibus para evitar que a passagem chegue a R$ 8,00 ou R$ 10,00.
Para dar o salto para a Tarifa Zero, as prefeituras de vanguarda estão adotando três estratégias combinadas para criar um Fundo Municipal de Mobilidade:
- A Captura do Vale-Transporte Empresarial
Este é o pulo do gato. Hoje, os empresários da sua cidade compram o vale-transporte diretamente da viação de ônibus. Com a Tarifa Zero, a prefeitura assume o serviço e cria uma “Taxa de Mobilidade” (ou contribuição) cobrada dos empregadores. O empresário deixa de comprar o passe da viação e passa a recolher esse valor (muitas vezes menor que o custo anterior) direto para o Fundo Municipal. A prefeitura financia o transporte usando o dinheiro que já circulava no mercado corporativo privado.
- Remuneração por KM Rodado, e Não por Catraca
O modelo de pagar a viação pelo número de passageiros faliu. Ele estimula ônibus lotados nos horários de pico e frotas fantasmas nos finais de semana. Na Tarifa Zero, a prefeitura contrata a empresa por quilômetro rodado. A viação ganha para cumprir a rota e o horário com ar-condicionado e ônibus limpo. O lucro dela deixa de depender da catraca e passa a depender da qualidade do serviço prestado.
- Subsídios Cruzados (A Cidade Financiando a Cidade)
O Fundo Municipal de Mobilidade precisa de múltiplas torneiras. Prefeituras inteligentes estão direcionando 100% da arrecadação da Zona Azul (estacionamento rotativo), das multas de trânsito e da exploração de publicidade nos ônibus e abrigos (outorga) diretamente para pagar a conta da Tarifa Zero. Quem usa o carro particular (e gera trânsito) ajuda a subsidiar o transporte coletivo.
O Retorno do Investimento: O Dinheiro Fica em Casa
Prefeitos que encaram a Tarifa Zero apenas como “gasto” estão perdendo a visão macroeconômica. Quando Caucaia (CE) e Maricá (RJ), pioneiras em grande escala, zeraram a tarifa, o comércio local explodiu.
O cidadão passa a circular nos finais de semana. A família que ficava trancada no bairro periférico no domingo vai ao centro da cidade, consome um sorvete, compra uma roupa, vai ao parque. O comércio vende mais, contrata mais funcionários e, consequentemente, paga mais ISS e ICMS para a Prefeitura. O subsídio do ônibus volta para o cofre público em forma de arrecadação tributária.
Em um ano onde deixar um legado inquestionável é a meta de todo gestor, a Tarifa Zero é a obra mais visível e transformadora que um mandato pode entregar. Ela não exige tijolo, cimento ou licitações intermináveis de infraestrutura; exige apenas coragem política para mudar a fórmula matemática que sempre puniu o cidadão mais pobre.
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