Primeira infância em foco: como municípios podem garantir transição de qualidade para o Ensino Fundamental

Crédito: Ffoto: Divulgação Freepik, Acolhida no CMEI Cida Barreto, em Jardim da Penha em Vitória ES Foto: Divulgação

Desafios da Primeira Infância e Transição para o Ensino Fundamental: Um Compromisso com o Futuro

A primeira infância, que abrange o período de 0 a 6 anos, é uma das fases mais sensíveis e decisivas da vida de uma pessoa. O cérebro humano se desenvolve de forma acelerada nessa etapa, criando conexões neurais que vão impactar a aprendizagem, o comportamento e a saúde ao longo da vida. Cuidar da primeira infância, portanto, não é apenas uma ação de proteção: é uma política de desenvolvimento humano. Com base em evidências científicas e experiências municipais bem-sucedidas, gestores públicos precisam garantir o desenvolvimento integral das crianças desde a Educação Infantil até os anos iniciais do Ensino Fundamental, promovendo uma transição segura, inclusiva e eficaz. O desafio envolve formação de professores, integração entre etapas e escuta ativa das famílias.

Para os prefeitos, o investimento na primeira infância deve estar no centro das estratégias públicas. A construção de creches e escolas de Educação Infantil, a formação de professores especializados, a oferta de alimentação adequada e o acompanhamento do desenvolvimento infantil são compromissos fundamentais para que crianças tenham igualdade de oportunidades.

A transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental I (1º ao 5º ano) é um momento crítico. Nessa passagem, as crianças deixam o ambiente lúdico e acolhedor da Educação Infantil para ingressar em uma etapa mais estruturada, com foco em alfabetização, avaliação e conteúdos curriculares mais exigentes. Especialistas alertam que, se essa transição for abrupta ou mal planejada, pode causar impactos negativos no rendimento escolar, autoestima e até na saúde emocional da criança. Muitas delas enfrentam dificuldade de adaptação, ansiedade e desmotivação, sobretudo em contextos de vulnerabilidade social.

Uma das estratégias fundamentais para garantir uma boa transição entre etapas é assegurar a continuidade pedagógica. Isso significa que as práticas de cuidado, escuta e desenvolvimento integral da Educação Infantil devem dialogar com as propostas curriculares do Ensino Fundamental, criando pontes entre as etapas e evitando rupturas.

Alguns municípios já adotam práticas de aprimoramento e busca de melhoria na qualidade de ensino com reuniões pedagógicas conjuntas entre professores da pré-escola e do 1º ano, além de desenvolverem projetos integrados que acompanham o aluno ao longo da transição com formação continuada e foco em infância e alfabetização e, claro, o acompanhamento individualizado dos alunos nos primeiros meses do Ensino Fundamental.

Outro aspecto essencial para o sucesso da transição é a escuta ativa das famílias. Muitas vezes, a ansiedade da criança ao mudar de etapa reflete também a insegurança dos pais. Criar canais de diálogo, reuniões de orientação e momentos de acolhimento são atitudes que fortalecem a parceria escola-família, fundamental para a trajetória educacional.

Acolhida no CMEI Cida Barreto, em Jardim da Penha em Vitória ES             Foto: Divulgação  

Nos Centros Municipais de Educação Infantil (CMEI) de Vitória participam, nos primeiros dias, da fase de acolhimento, com horário reduzido e presença de um familiar ou responsável nesse período. A ação é fundamental para propiciar uma adaptação leve e prazerosa que prepara as crianças para o restante do ano. Nem todas as mamães, papais ou responsáveis ficam dentro da sala de aula, depende da dinâmica desenvolvida pela unidade de ensino. A Secretaria de Educação de Vitória (Seme) orientou todas as unidades a realizar o acolhimento cuidadoso e sensível para todas as crianças, possibilitando a presença de um familiar ou pessoa de referência, de acordo com a disponibilidade, durante esse processo de adaptação.

Os educadores são peças-chave nessa engrenagem. Professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental precisam ter formação sólida sobre o desenvolvimento infantil, práticas pedagógicas integradoras e capacidade de adaptação às necessidades de cada aluno. O Corpo Docente precisa ter no seu planejamento pedagógico, políticas municipais que invistam em programas de formação continuada específicos e promovam trocas de experiências entre docentes das duas etapas que, consequentemente, remete ao reconhecimento e valorização do trabalho pedagógico com avaliação diagnóstica dos alunos e não punitiva no início do Ensino Fundamental.

Além dos aspectos pedagógicos, a infraestrutura das escolas também deve favorecer a transição. As salas de aula do 1º ano precisam manter um ambiente acolhedor, com brinquedos, cantinhos de leitura e atividades diversificadas, respeitando o ritmo das crianças. Ambientes muito rígidos, carteiras enfileiradas e ausência de espaços de movimento podem gerar estranhamento e inibir a aprendizagem lúdica, ainda necessária nessa faixa etária.

Alguns municípios têm se destacado por adotar boas práticas nessa área. Destacam-se, no Ceará por exemplo, Sobral com forte investimento na formação de professores e na articulação entre as etapa sendo reconhecida nacionalmente como um exemplo de sucesso na educação pública, destacando-se por seu forte investimento na formação continuada de professores e na articulação entre as etapas de ensino, além de uma gestão escolar focada em resultados e na valorização dos profissionais. A cidade alcançou altos índices no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), superando a meta nacional em todas as escolas municipais avaliadas, com um foco especial na alfabetização na idade certa e na melhoria das práticas pedagógicas.   Do nordeste, nos dirigimos a Jundiaí na região metropolitana de São Paulo que se destaca por fortalecer a transição da Educação Infantil ao Ensino Fundamental, promovendo protagonismo infantil e escuta ativa. A Unidade de Gestão da Educação (UGE) organiza encontros entre diretoras, orientadoras e educadoras das redes infantil e fundamental, identificando necessidades específicas de aprendizagem—emocionais e cognitivas—de cada criança no momento da passagem de ciclo.

Nesse processo, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) guia avaliações e planos pedagógicos individuais. Crianças com dificuldades recebem apoio por meio de planos específicos, enquanto toda a turma é acompanhada emocionalmente — e essa ponte entre os anos representa um esforço coletivo para garantir continuidade e sentido no aprendizado. Paralelamente, Jundiaí desenvolve o inovador “Desemparedamento da Infância” — inspirado na abordagem de Reggio Emilia — que incentiva saídas de sala para aprender na natureza. Escolas municipais realizam aulas em praças, parques e jardins, criando espaços de afetividade, autonomia e exploração sensório-motora. Essa prática não só dinamiza o ambiente escolar, mas também atribui centralidade à voz infantil, alimentando vínculos entre criança, natureza e comunidade.

O “Programa Escola Inovadora”, por sua vez, vai além: introduz nos currículos atividades como robótica, inglês e música a partir dos 4 anos, difunde carrinhos de tecnologia pelas unidades e forma “repórteres mirins” para documentar eventos escolares. Assim, os pequenos expressam sua visão e constroem currículo coletivo. Avaliar a transição, ampliar o protagonismo no cotidiano e utilizar espaços externos são ações que transformam a escola municipal em lugar de pertencimento real. Em Jundiaí, a infância não é apenas fase de preparação: é o coração pulsante da educação.

Presença dos pais é fundamental para as propostas do Escola Inovadora — Foto: Prefeitura de Jundiaí/Divulgação  

Desde 2023, Aracaju tem assumido protagonismo na articulação intersetorial entre saúde, educação e assistência social na primeira infância – etapa crucial do desenvolvimento infantil, que vai da gestação aos 6 anos. A política municipal se apoia no Plano Estadual “Ser Criança” e no Plano Municipal da Primeira Infância, construído com participação de diversos atores sociais.

Na esfera da saúde, o Programa Criança Feliz promove visitas domiciliares onde profissionais orientam famílias sobre aleitamento materno, vacinação, nutrição, estimulação cognitiva e socioemocional. Quando necessário, há encaminhamentos imediatos para unidades básicas de saúde ou creches. No âmbito da educação, a Secretaria Municipal integra-se com assistência social para implantar trilhas formativas na primeira infância, capacitando gestores e técnicos. As creches públicas e pré-escolas recebem apoio técnico, capacitação pedagógica e estímulo à participação dos pais, especialmente por meio do programa “Papai Tá Aqui”, que incentiva a paternidade responsável.

A assistência social promove apoio financeiro via benefícios como o “CMais Ser Criança”, além de programas de proteção a famílias em vulnerabilidade. Os CRAS atuam no mapeamento de necessidades e no acolhimento de famílias com risco social. A governança do modelo é feita por um Comitê Intersetorial formado por secretarias de Saúde, Educação, Assistência Social, Esporte e Cultura. Reuniões periódicas viabilizam alinhamento do plano de ação e avaliação de resultados.

Esse modelo integrado tem apoio técnico de universidades, ONGs e do Observatório Social, promovendo ações como estímulo à estimulação infantil, formação de profissionais, construção de creches, brinquedo praças, reforço na nutrição e paternidade ativa. O objetivo é garantir desenvolvimento pleno, equidade e qualidade de vida para todas as crianças desde os primeiros anos de vida.

Planejamento Pedagógico Estratégico da Secretaria de Educação de Colatina ES  

No município de Colatina (ES), a rede municipal de ensino tem adotado estratégias pedagógicas que colocam o aluno no centro do processo de alfabetização. Por meio de um acompanhamento individualizado, as escolas garantem que cada criança receba atenção compatível com suas necessidades específicas, respeitando o ritmo e o desenvolvimento de cada uma. A iniciativa está diretamente articulada com o histórico da Educação Infantil, valorizando as experiências e vivências anteriores dos estudantes. Esse modelo de acompanhamento permite que os professores identifiquem dificuldades desde os primeiros anos do Ensino Fundamental, promovendo intervenções pedagógicas mais eficazes e personalizadas. Além disso, o trabalho conjunto entre docentes da Educação Infantil e do Ensino Fundamental fortalece a continuidade do aprendizado, reduzindo os impactos da transição entre as etapas escolares.

A formação continuada dos profissionais da rede também tem sido uma prioridade da Secretaria Municipal de Educação, assegurando o uso de metodologias atualizadas e baseadas em evidências. O resultado é uma alfabetização mais sólida, que respeita a diversidade do público escolar e contribui para melhorar os índices de aprendizagem na cidade. Colatina mostra, assim, que investir na escuta, no planejamento individualizado e na articulação entre etapas pode fazer a diferença no percurso educacional de seus alunos.

Esses exemplos mostram que é possível promover políticas públicas consistentes e transformadoras, mesmo em contextos de restrição orçamentária. Outro ponto essencial para prefeitos e gestores é o monitoramento dos indicadores. A transição de qualidade pode ser medida por diversos critérios que vai desde a taxa de adaptação dos alunos no 1º ano, passando pelo índice de alfabetização na idade certa, a retenção ou evasão escolar nos primeiros anos gerando a satisfação das famílias e dos educadores. O uso desses dados permite correções de rota, identificação de gargalos e aprimoramento das políticas educacionais.

Diversos municípios já aprovaram seus Planos Municipais pela Primeira Infância (PMPI), documento orientador das ações públicas voltadas à infância. Esses planos reúnem metas de curto, médio e longo prazo para garantir o desenvolvimento integral, articulando saúde, educação, assistência, cultura e lazer. A existência e a execução efetiva dos PMPI são fundamentais para dar sustentabilidade às ações, garantir orçamento e mobilizar toda a rede de apoio à criança.

A liderança dos prefeitos e secretários de educação é indispensável. São eles que podem articular as redes, integrar as políticas e garantir o investimento necessário para que a infância seja, de fato, prioridade. Também é papel dos gestores buscar apoio técnico de instituições como provocar a colaboração entre municípios, estados e organizações da sociedade civil como uma força de ações principalmente entre municípios limítrofes a ser explorada em favor da infância.

Investir na primeira infância e garantir uma transição qualificada para o Ensino Fundamental I não é um desafio apenas educacional: é social, econômico e político. Crianças que têm um início de vida saudável, com vínculos fortes, acesso a educação de qualidade e transições seguras, tornam-se adultos mais saudáveis, produtivos e realizados. Cabe aos municípios liderar esse processo com coragem, planejamento e escuta ativa de todos os envolvidos. O futuro começa agora — e começa pelas crianças.

Da Redação: Transcrição da matéria publicada em nossa edição 92 Editoria Educação

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