Política de ilusões: estratégias eleitorais e irresponsabilidade no Brasil

Luís Fernando Lopes (*)

Cada vez mais as eleições se tornam a pauta principal do nosso cotidiano. A presença intensificada de propagandas político-partidárias nos canais de comunicação tradicionais, aliada à ocupação das redes sociais com conteúdos sobre a temática são dois elementos que atestam o direcionamento das atenções para o pleito eleitoral que se aproxima.

Entretanto, as estratégias eleitorais e seus respectivos discursos têm revelado, por parte de alguns, uma política de ilusões e irresponsabilidade alicerçada no apelo à ignorância. Estratégia essa mascarada pela suposta defesa de valores tradicionais, por vezes incompreendidos, ou até mesmo concretamente desprezados pelos seus aparentes defensores. Montagens reúnem falas, imagens, trilha sonora, entre outros recursos, que procuram convencer o público sem que a reflexão crítica lhe seja permitida. Afinal, no entendimento de alguns, reflexão, consciência crítica e outros temas correlatos se tornaram privilégios de socialistas utópicos desocupados, que insistem em tentar subverter a ordem social e com isso impedir o progresso da nação.

Todavia, a força da realidade parece impor sérias dificuldades às estratégias, ilusões e irresponsabilidades adotadas por alguns para convencer seus eleitores. Preços altos, desemprego, aumento da fome, degradação ambiental, entre outras mazelas sociais, atreladas à irresponsabilidade política, provocam indignação, pelo menos em uma parte considerável da sociedade. As manifestações em redes sociais, não isentas de debates, nem sempre proveitosos, são um exemplo dessa constatação.

Em um contexto de profundas desigualdades sociais e contradições, não faltam oportunistas que recorrem a todo tipo de estratégias na busca para alcançar seus objetivos políticos. Assim, apela-se para temas religiosos, moralismo, insultos, sentimentalismo, entre outras táticas a fim de chamar atenção para algum aspecto que possa iludir eleitores e convencê-los, desprezando a situação concreta vivida pelo povo e suas reais necessidades.

Mas por que razões nos encontramos em tal situação? E o que fazer diante dela? Não resta dúvida que há motivos históricos que precisam ser considerados. Somos a continuidade de uma sociedade escravocrata gestada em um espaço de exploração, em que seres humanos foram e infelizmente ainda são tratados como mero insumo para a conquista de objetivos egoístas. Alguns, inclusive, consideram esse fato como algo natural e simples parte de um sistema, no qual prevalecem aqueles que melhor se adaptam a ele.

Contudo, naturalizar um problema ou simplesmente negá-lo, apelando para as estratégias de faz de conta, não nos trará as soluções que necessitamos. Talvez traga alguma vantagem para alguns egoístas, desumanos e inescrupulosos. Reflexão e compreensão são fundamentais, mas não bastam. É preciso compromisso com a humanidade concreta e ações coerentes e responsáveis.

Assim, o nosso sim ao que buscamos passa pelo dizer não ao que nos impede de ser plenamente individual e coletivamente. Que futuro desejamos? O que já estamos fazendo no presente para que esse futuro se concretize?

(*) Luís Fernando Lopes é mestre e doutor em Educação. Professor do Programa de Pós-Graduação, Mestrado e Doutorado em Educação e Novas Tecnologias e da Área de Humanidades do Centro Universitário Internacional Uninter.

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